Uns queriam um emprego melhor; outros, um emprego. Uns queriam uma refeição mais farta; outros, apenas uma refeição. Uns queriam uma vida mais amena; outros, apenas viver. Uns queriam ter pais mais esclarecidos; outros, apenas ter pais. Uns queriam ter olhos claros; outros, apenas enxergar. Uns queriam ter voz bonita; outros apenas falar. Uns queriam o silêncio; outros, ouvir. Uns queriam um sapato novo; outros, ter pés. Uns queriam um carro; outros, andar. Uns queriam o supérfluo; outros, apenas o necessário.
— Chico Xavier.
Quem me dera, ao menos uma vez, acreditar por um instante em tudo o que existe. Acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes.
— Renato Russo.
Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É aceitar doer inteiro até florir de novo.
— Caio Fernando Abreu.
Você precisa saber que poetas morrem na folha de papel que rabisca. Na leveza da pena quem embaia a espada. Poetas falecem antes de terminar um título, e perecem no ponto que interroga, ou revoga, ou não termina o parágrafo. Poetas conversam com cartas sem ousar colocar teus nomes, nem dizem das pétalas que permeia a cama, e nem da alma que descoloriu. Você precisa saber que retratos serão pessoas tão quentes, que hoje não lhe trazem nada mais que a frieza da moldura. Você precisa sair de casa e ver a praça, preserva-se na movimentação das luzes, dos rostos que sabem lá pra onde vão. Encene no espelho aquela impetulância que teu nariz tão afinado transmite. E se de pessoas faltar, fique na cadeira, e segure um livro, pois por mais antigos que sejam ainda sim se tornam tão necessários. É incrível a relação que se pode ter uma história que nem lhe pertence, que o nome do autor nem se pronuncia certo na tua fala. Mas que cada capítulo há uma nova segurança posta na soma de páginas. E não dormes, tanto que recusa o almoço, pois se alimenta da satisfação de reciprocidade. Eu lhe entendo como aquele autor que recomenda para um amigo um livro. Eu lhe vejo tão claro quanto um resumo feito ao final da leitura. Poetas são tão bem humanos, que é satisfatório aquilo que ele transmuta do “feio” para o “belo”. Eles choram com a mesma intensidade que chuva desliza na vidraça de teu quarto. Os ombros são tão pesados que as pálpebras já briguem entre si num espaço de luz. Você precisa saber que sou um poeta, e como todo “rimador”, eu assino meu nome ao final de toda aquela metáfora e o pobre leitor nem percebe o quanto falei de mim. Malditas palavras.
— O poeta morre na folha.